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No concelho de Oleiros ainda subsistem algumas tradições e actividades que foram caindo no esquecimento.
Uma dessas actividades é a pisa tradicional das castanhas. Manuel Barata, da Roda, Oleiros, decidiu este ano recriar essa prática, que consiste em retirar a casca à castanha, que fica meio seca, aquilo a que chamamos castanha pilada, e que podemos encontrar em qualquer superfície comercial. Outrora, depois de pisada, a castanha era guardada e consumida pelo ano fora, mas normalmente até Junho. Era um alimento importante nas aldeias. Comia-se quer cozida quer em sopa. Entre as razões que o levaram a organizar esta actividade, Barata diz que não quer que se perca a tradição, preservando-a.
Nalgumas casas ainda se conservam os caniços, locais onde a castanha é seca. O caniço era construído nas alturas, no soalho do andar de cima das casas. Em baixo fazia-se lume durante um mês, o período necessário para secar as castanhas. O fumo e o calor elevam-se no ar e penetram no caniço, que não é mais que uma construção com tiras de madeira, com pequenas fendas no sentido de deixar passar o calor. A castanha vai ficando com a casca seca e o miolo vai ressequindo e secando. Depois de secas, havia que retirar a casca. Para tal a castanha era colocada em cestos de metal (primeiro eram de madeira mas danificavam-se muito) e pisadas com as botas cardadas. Normalmente eram dois cestos e dois homens(um em cada cesto) num ritmo certo. A castanha fica depois liberta da casca. Segue-se o processo conhecido como joeirar (crivar ou peneirar), em que os cestos de metal( com aberturas) ) são sacudidos até libertar as cascas. No fundo do cesto ficam apenas as castanhas, amarelinhas, secas e deliciosas. Estas eram depois guardadas em sacas de linho ou em arcas e consumidas durante o ano, embora fossem consumidas até ao S. João, que acontece em Junho. A partir daí dizem que perde qualidades e o paladar.
Manuel Barata fez a demonstração de todo o processo. Diz que o gosto por esta actividade surgiu da seguinte forma: quando os pais e os tios pisavam as castanhas faziam pequenas pausar para comer e beber um copinho. Nessas ocasiões ele e os outros miúdos saltavam para dentro dos cestos e experimentavam. Uma vez que a produção é pouca, convidou os vizinhos(da Roda e até da Isna de Oleiros) a contribuir com alguns quilos de castanha de modo a que o caniço ficasse repleto. Assim, aconteceu, quatro vizinhos decidiram colaborar. Foram colocados 700 quilos de castanha no caniço, realmente muita castanha. Depois de pilada e libertada da casca pesa pouco menos de 250 quilos. ~ Convidou depois diversas pessoas para assistir e para ajudar na pisa das castanhas. Tentou recriar o processo de forma fidedigna. Foram usadas cestas de verga para retirar as castanhas do caniço e despejá-las nos cestos de pisa. A tradição mandava que se usassem duas cestas, uma maior outra mais pequena. Primeiro despejavam a cesta maior no cesto. Pisavam e depois colocavam as castanhas da cesta pequena. Outra particularidade era o facto da castanha já pilada ser ensacada em sacos de linho. Manuel Barata também respeitou esta tradição.
Os cerca de 250 quilos de castanha pilada não se destinam ao mercado. Manuel Barata diz que é para consumo próprio e para oferecer aos amigos. A castanha pilada é colocada de molho, em água quente, para retirar a pele e depois cozida. Pode ser usada no fabrico de bolos ou acompanha com certas carnes.
No final da pisa, os convidados de Manuel Barata foram convidados a participar no lanche, onde não faltaram os enchidos, o queijo de cabra fresco, a broa de milho e o bom vinho tinto caseiro. E ainda bolos e outros petiscos. Um produto que se fez notar na mesa foi o chamado bucho de porco(enchido em que se usava o próprio bucho do porco, cheio com a mesma massa usada nas chamadas morcelas), que era outrora consumido no dia da pia da castanha, por ser um alimento nutritivo e os homens despendiam muitas forças nesta actvidade. Segundo Manuel Barata, além do bucho era também tradição comer-se cabeça de porco.
Particularidades
Ao invés de pisar a castanha nos cestos de metal, pode-se fazê-lo numa debulhadeira, que se obtém o mesmo efeito. No entanto, a tradição era a pisa nos cestos de metal, que por sinal hoje em dia ninguém já fabrica. No entanto, Manuel Barata diz que qualquer serralheiro, mediante observação de um cesto, pode facilmente fazer cópias. Outra particularidade era o facto das botas usadas na pisa serem brochadas, pois assim a força se exercia sobre as castanhas era mais eficiente para lhes libertar a casca. Refira-se ainda que na fogueira deveria ser usada lenha de castanheiro ou medronheiro por libertar mais calor e arder mais lentamente.
Em Maio Manuel Barata vai estar no Festival de Sopas do Mosteiro, onde fará uma demonstração da pisa de castanhas para os milhares de pessoas que são esperados. Na edição do ano passado já efectuou uma demonstração, perante o olhar curioso de uma multidão. Este ano promete ainda mais empenho. Reservou 40 quilos de castanha do caniço precisamente para esse efeito.
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