Primeira Página Jornal Opinião A Conspiração
 
Cialis 10mg

Seg

07

Dez

A Conspiração

Escrito por Hélio Bernardo Lopes   

Hélio Bernardo LopesVolta que não volta, lá nos surge a questão de saber se existe por aí em curso uma qualquer conspiração contra o atual Governo. E quem assim coloca a questão, ou é tolo ou finge sê-lo, sempre perguntando contra quem é a conspiração, por quem é dirigida e como está a atuar.

Claro que existe uma conspiração, sendo, contudo, preferível que se procure identificar o objetivo estratégico da mesma, mais do que saber contra quem é e quem a promove, embora este último aspeto seja de muito fácil resposta. Para se poder perceber o que se passa, é essencial recuar ao tempo de Marcelo Caetano, porque o País, como recentemente explicou um nosso compatriota numa biografia de Salazar, era formado por uma miríade de grupos de interesses de ordem diversa. E o que Salazar terá feito, em sua opinião, foi gerir os interesses desses grupos, deitando mão de um conjunto vasto de ambiguidades.

Um tal modelo explicativo não andará, como é evidente, muito longe da realidade que se terá passado ao tempo da governação de Salazar. Mas tudo se começou a modificar com o surgimento de Marcelo Caetano à frente do Governo, porque o académico, manifestamente, não era um homem político, e estava muito longe de conhecer, por vivência direta, a necessidade de gerir o tal leque de ambiguidades que Salazar soube manusear de um modo magistral.

Se o leitor procurar o currículo académico de Salazar, facilmente perceberá que o número de publicações universitárias é diminutíssimo, até por ter estado ligado à universidade por curto intervalo de tempo. Ao contrário, o de Marcelo Caetano é vastíssimo, sendo que esteve diretamente ligado ao poder por muito pouco tempo. Aquele, um político, este, um académico, num dueto que mostra, e do modo mais claro, que quem sabe, faz, quem não sabe, ensina.

Neste ambiente, pois, a Revolução de 25 de Abril veio ao encontro dos grupos mais ligados aos interesses e que vinham de trás, mas acabou por se tornar, e rapidamente, numa bandeira dos que, por uma via essencialmente ideológica, sempre haviam contestado o regime da Constituição de 1933.

Esta dupla realidade foi, afinal, a que levou ao surgimento das tais esquerdas históricas na corrida ao poder e à modelação da organização política, sendo que a sua parte mais culta, oriunda do mundo académico e dos domínios das ditas ciências sociais e humanas, num ápice, que começou a ter lugar após os acontecimentos de 25 de Novembro, aos poucos se foi passando para o lugar da respetiva origem social: mil e um, como que por milagre, passaram da extrema-esquerda e da esquerda comunista para a direita mais neoliberal.

Aconteceu, contudo, que o comunismo internacional acabou por colapsar, o que acabou por deixar numa situação de real orfandade ideológica os que, na sua histórica luta anti-comunista, sempre se haviam reivindicado do designado socialismo democrático, mas que agora se percebe que acabou por descambar no neoliberalismo. Tinha de ser assim.

Tudo passou, pois, a girar em torno do formalismo constitucional e eleitoral, completamente à revelia de um ínfimo de ideologia, gerando nos cidadãos a verdadeira descoberta da grande impostura em que se transformou a dita democracia dos nossos dias: tudo se reduz, afinal, a evitar a extinção, como se dá com os comunistas, ou a ir gerindo o espaço histórico conseguido na área do poder, como se passa com os (designados) socialistas.

Neste sentido, pois, há um partido a mais, seja ele o PS ou o PSD. E porque é aquele que está no poder e persevera, com o apoio dos eleitores, na defesa do Serviço Nacional de Saúde e no Serviço Público da Segurança Social, tornou-se imperativo, por parte dos grandes interesses, derrubá-lo. Simplesmente, percebeu-se já esta realidade, e que é o facto de não se vislumbrar um suicídio por parte dos eleitores, que não têm um ínfimo de razão para acreditar que, criando ainda mais pobreza, virá depois a boa nova. Os portugueses, naturalmente mulas e mandriões, não são parvos nem suicidas.

Quem são, então, os grupos que estão interessados em pôr um fim no que resta do 25 de Abril, não podendo embora dizê-lo? Bom, todos aqueles que, pela posição muito singular que detêm no funcionamento da sociedade, estarão, quase certamente, para lá da onda de pobreza que possa vir a abater-se sobre a generalidade dos portugueses num futuro próximo: detentores de soberania, militares, académicos, banqueiros, grandes empresários, diplomatas, mesmo jornalistas, e pouco mais.

Mas a sua atuação não é regida por um comando central, como sugere a constante pergunta capciosa de uma imensidão de jornalistas, antes funcionando, naturalmente, através da perceção que a tais grupos vai chegando sobre o mais provável sentido da História a curto prazo. Se agora se operasse um qualquer golpe militar de esquerda, num ápice, não haveria naqueles grupos, e mais uma vez, quem não fosse profundamente de esquerda. Tal como em Abril de 1974, e até que se operasse um novo 25 de Novembro, retomador da designada normalidade democrática.

A vida do nosso País, se vista sem preconceitos, é, ao menos de há uns dois séculos para cá, uma verdadeira procura do nada, materializada na confirmadíssima caraterística que é a de não conseguir criar riqueza durável, nem situar-se no grupo dos que marcam o rumo histórico, num verdadeiro gráfico em dentes de serra. Tem sido sempre assim, e assim vai continuar a ser, agora com a nova onda de pobreza e de miséria que os grandes interessados se preparam para, em nome da dita democracia, imporem à generalidade dos portugueses.

É esta a conspiração que hoje se desenvolve contra José Sócrates, o seu Governo e o seu partido, mas que num ápice terminaria se ele renunciasse ao que levou os eleitores a darem-lhe a vitória recente, ou seja, privatizar os setores da Saúde e da Segurança Social. Fácil e nada caro!

 
Tem de se autenticar (ou registar-se, se ainda não possui uma conta) para poder adicionar comentários a este artigo.
buy software
| Mais