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O Centenário do Liceu de Camões

Escrito por Hélio Bernardo Lopes   

Hélio Bernardo LopesComemorou-se há dias o centenário do histórico Liceu Nacional de Camões, numa circunstância que se viu marcada por uma cerimónia presidida pelo Presidente Cavaco Silva, e em que estiveram presentes antigos alunos daquele liceu, alguns dos quais figuras hoje públicas.

Esta cerimónia mostrou, entre outras coisas, um modo de estar na vida política de hoje que é muito distinto do vivido por Alberto Martins e Vital Moreira nas circunstâncias que envolveram a inauguração do Centro de Matemática da Universidade de Coimbra, ao tempo da II República.

Desta vez, para lá do Presidente da República e da Ministra da Educação, foi ainda possível escutar as palavras, entre outros, do presidente da Associação de Estudantes daquela escola secundária. A verdade é que o modo como proferiu a sua intervenção esteve longe da elegância que ali poderia ter posto. Não faltaria àquele jovem, com toda a certeza, a inteligência para que tivesse tido a iniciativa de solicitar a alguém da área das letras que lhe burilasse o discurso, dizendo o mesmo, porventura ainda mais, mas com mais elegância.

Fiquei sem perceber, aliás, o real significado da mudança de posição e do olhar do Presidente Cavaco Silva a dado passo, uma vez que neste tipo de tabus o seu pensamento acaba, de facto, por ser razoavelmente insondável.

O que para mim foi novidade foi a presença de raparigas já no tempo liceal de Jorge Miranda, certamente na época do reitor albicastrense, Sérvulo Correia. Confesso que nunca ouvira falar de raparigas no Liceu Nacional de Camões. Com sessenta e dois anos, até a mim parece mentira.

Em contrapartida, no meu liceu, o Liceu Nacional de D. João de Castro, com reitores diversos, entre os quais José Hermano Saraiva, sempre conheci raparigas e em número muito elevado, nas salas de aula, nos recreios e por todo o lado. Até música existia durante os intervalos nos três ou quatro recreios, sempre mistos.

Já na universidade, desafiei em certo dia os hoje académicos do Instituto Superior Técnico, Luís Borges de Almeida e Víctor Anunciada, e o colega José António Gomes Belo, no sentido de pedirmos ao Ministro da Educação Nacional, José Hermano Saraiva, que nos recebesse, a fim de lhe solicitarmos que nomeasse como próximo reitor do nosso antigo liceu alguém que mantivesse o grau de liberdade que sempre havíamos conhecido. E assim nos garantiu José Hermano Saraiva, cumprindo cabalmente a palavra que nos dera.

O que ninguém contou sobre o Liceu Nacional de Camões, ao que sei, foi o que levou o Governo de Salazar a nomear para seu reitor o albicastrense, Sérvulo Correia. Talvez num artigo como este, em próxima oportunidade, eu venha a relatar o que os muito mais velhos que Jorge Miranda me contaram ao tempo dos meus doze anos.

 
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